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  • Julio Cesar França Franco

O SULTÃO E O VIZIR



" Durante uns trinta anos, um Vizir, que era conhecido e admirado por

sua lealdade, sinceridade e devoção a Deus, serviu ao seu senhor.

Sua honestidade, entretanto, gerou inimigos na corte, que espalhavam

calúnias a seu respeito.

Eles falavam ao ouvido do Sultão o dia inteiro, até que ele também

começou a desconfiar do inocente Vizir e acabou condenando à morte o

homem que lhe servia tão bem.

Naquele reino, quem fosse condenado à morte, era amarrado e jogado no

cercado onde o Sultão mantinha os seus cães de caça mais ferozes.

Os animais estraçalhariam a vítima de imediato.

Antes de ser jogado aos cães, entretanto, o Vizir fez um último

pedido: precisaria de dez dias de trégua.

Nesse tempo pagaria as dívidas, recolheria o dinheiro que lhe deviam

e devolveria artigos que as pessoas lhe deram para guardar.

Dividiria seus bens entre os membros da sua família e indicaria um

guardião para os filhos.

Depois de ter a garantia de que o Vizir não iria tentar fugir, o

Sultão lhe concedeu o pedido.

O Vizir correu para casa, juntou cem moedas de ouro, depois foi

visitar o caçador que cuidava dos cães do Sultão.

Ofereceu ao homem as cem moedas de ouro e disse: "deixe-me cuidar dos

cães durante dez dias".

O caçador concordou e durante os dez dias seguintes o Vizir cuidou

das feras com muita atenção, tratando-as bem e alimentando-as

bastante.

No final dos dez dias elas estavam comendo na sua mão.

No décimo primeiro dia, o Vizir foi chamado à presença do Sultão, e

este assistiu enquanto o Vizir era jogado aos cães.

Mas quando as feras o viram, correram até ele e mordiscaram

afetuosamente suas mãos e começaram a brincar com ele.

O Sultão ficou espantado e perguntou ao Vizir por que os cães haviam

poupado a sua vida.

O Vizir respondeu: "cuidei desses cães durante dez dias e o senhor

mesmo viu o resultado.

Eu cuidei do senhor durante trinta anos, e qual foi o resultado?

Fui condenado à morte por causa de falsas acusações levantadas por

meus inimigos".

O Sultão corou de vergonha.

Ele não só perdoou o Vizir como lhe deu belas roupas e lhe entregou

os homens que o haviam difamado.

Mas o nobre Vizir os libertou e continuou a tratá-los com bondade.


Por vezes nós temos agido como o Sultão da história.

Desconsiderando pessoas que nos são fiéis por longo tempo, damos

ouvidos a outras que desejam destruir e infelicitar.

Há sempre caluniadores nos palcos terrenos, e sempre há quem lhes dê

ouvidos e crédito.

O indivíduo que fala mal dos outros quando estes estão ausentes, não

tem boas intenções.

Quem deseja edificar, corrigir equívocos, melhorar a situação, fala

diretamente com os envolvidos e ouve as suas razões.

Geralmente instigadas pela inveja, o ciúme, o despeito, pessoas

arrasam a vida de outras pessoas e geram infelicidade para si mesmas,

num futuro próximo ou distante.

Por isso, é sempre importante pensar sobre as verdadeiras intenções

daqueles que gostam de fazer comentários sobre quem não está presente

e não tem a menor chance de se defender.

É importante considerar, ainda, que quem faz comentários maldosos dos

outros para você, poderá fazer de você para os outros, logo mais.

Pensando assim, sempre que o assunto em pauta for uma pessoa, seria

justo que ela pudesse participar da conversa.

Você não gostaria de estar presente quando o assunto fosse você?

Pois bem, é muito provável que as outras pessoas também desejem o

mesmo.

Por mais fascinante que seja falar mal dos outros "pelas costas",

isso jamais fará dessa prática uma atitude nobre.

Pensemos nisso!"

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